Assalto a uma casa, inverno

Testemunho · Ucrânia

Um estádio cheio a cada dois meses

Da Legião Internacional ao GUR e à 3.ª Brigada de Assalto, o testemunho de um português que combate na Ucrânia desde 2022. Drones, assaltos, recrutas de 52 dias e uma mensagem para as Forças Armadas portuguesas, nas palavras de quem lá esteve.

10 min de leituraPor Portuguese Blood
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O testemunho de um português que combateu na Ucrânia desde 2022.

Não há aqui heróis de cartaz. Há um português que viu a guerra chegar antes dela aparecer. Partiu quando muitos ainda nem sabiam se iam ser pagos e saiu como sargento de companhia.

Pedimos-lhe que contasse. Ele contou: sem guião, mas com alguns filtros porque nem tudo pode ser dito. O que se segue são as palavras dele, da experiência vivida neste exigente teatro de operações.

Legião Internacional · GUR · 3.ª Brigada de Assalto

Assalto a uma casa, inverno

Inverno. Mais uma casa por limpar.

"Ninguém vai para a Ucrânia para ficar rico"

Quando a guerra rebentou, em fevereiro de 2022, ele não foi apanhado de surpresa.

"Eu já tinha uma noção do que ia acontecer. Já em dezembro estava mais ou menos com essa noção."

Foi com muitos outros estrangeiros. E desfaz logo o mito do mercenário:

"Muitos deles foram por uma boa causa, não teve a ver com o dinheiro. Porque ninguém vai para a Ucrânia para ficar rico, é mesmo assim. Na altura em que eu fui, eu e muitos de nós nem sabíamos que íamos ser pagos."

Entrou para a Legião Internacional. Pouco depois nasceu a legião do GUR, hoje a Legião Internacional da inteligência militar ucraniana. Foi aí que passou os primeiros dois anos, de 2022 a 2024, em equipas de propósito especial.

"Não é considerado força especial, porque lá as forças especiais são as SSO. Mas na altura fazíamos basicamente o trabalho que os outros não queriam fazer: assaltos a áreas edificadas, reconhecimentos. Era esse o nosso trabalho."

Louvor e condecoração do GUR

Louvor e condecoração "Distinção de Honra" da Direção-Geral de Inteligência (GUR), 2023.

No final de 2023, a equipa levou um golpe de que não recuperou.

"Foi uma operação de assalto urbano. Tivemos baixas elevadas, a equipa também não era grande, e isso acabou por partir a equipa. Depois cada um foi para o seu canto."

Ele escolheu a 3.ª Brigada de Assalto.

Com a metralhadora ligeira

Uma violência que nem os veteranos conheciam

Na equipa dele não havia amadores. Ingleses, americanos, homens com o Iraque e o Afeganistão no currículo. Ele estava longe de ser o mais experiente.

"Inclusive um deles era de facto um Navy SEAL, que posso dizer que me ensinou bastante. Infelizmente foi uma das baixas que nós tivemos. Mas era uma pessoa espetacular, um excelente profissional."

Foram esses homens, os que já tinham visto tudo, os primeiros a admitir que nunca tinham visto aquilo.

"Eram eles próprios a dizer, já em 2022 e 2023, que era um nível de violência que nunca tinham experienciado. Uma coisa é o Afeganistão e o Iraque: ok, uns morteiros, uns RPG. Outra coisa é estares no meio de Sievierodonetsk, a atravessar uma rua, e começares a ouvir um T-72 a caminho da tua posição. Manda-te duas bombadas e de repente desmonta-te o prédio onde estás."

Progressão numa escadaria queimada

Combate em área edificada. Um piso de cada vez.

"É o obus de 155 ou de 152 a cobrir-te quase todo o caminho que fazes. É um nível de violência a que nós não estamos habituados. A NATO não está habituada. E pelos vistos é muito difícil meter isso na cabeça de quem manda."

Um estádio cheio a cada dois meses

Para explicar a escala, ele não usa gráficos. Usa estádios.

"São 35 mil baixas por mês, e isto só confirmadas através de drones. Fora os assaltos, onde não dá para confirmar as mortes. É o equivalente a um Estádio da Luz a cada dois meses. Um da Luz, um do Dragão, um de Alvalade. Obviamente nem tudo é morto, mas entre os mortos e os estropiados é um estádio cheio a cada dois meses."

"Se houvesse um atentado terrorista num estádio com 60 mil pessoas, era horrível. Falávamos disso como uma tragédia. E ali estão a cair à volta disso a cada dois meses."

Posição na floresta com NLAW

O céu nunca dorme

Ele esteve lá desde o primeiro dia. Viu a guerra mudar debaixo dos pés, e quem a mudou foram os drones.

"Em 2022, 2023, eu cheguei a participar em assaltos em que ias de Kozak quase direto ao teu objetivo. Metias a .50 a cantar, desembarcavas e fazias o assalto. Hoje em dia é impossível. Não é impossível, mas é extremamente arriscado."

Em 2024 ainda havia M113 e assaltos com 10 ou 15 homens. A meio desse ano, tudo encolheu. Grupos de 6 ou 8, desembarque a 5 ou 6 km do alvo. Hoje é pior.

"Hoje em dia usas 4 homens, 5 homens, e têm de fazer 10 km. Só a infiltração são 2 ou 3 dias, por causa dos drones. Envias 3, esperas 1 ou 2 dias para saber se o caminho ainda está ok, e só depois envias os outros 3. Até fazeres o assalto vai quase uma semana. E o assalto tem de ser rápido. Muito rápido."

"A partir do momento em que entras em contacto, tens se calhar 20 a 30 minutos até começar a chover artilharia e a virem os FPV."

E o trabalho não acaba quando a posição cai.

"Se o inimigo perde contacto com a sua própria posição, dá-lhe tipo uma hora no máximo. A seguir manda os FPV para dentro dos abrigos. Não é para a zona, é mesmo para dentro dos abrigos. Portanto tens de planear a infiltração, o assalto, e o que é que vais fazer imediatamente a seguir."

Vinte e quatro horas por dia

"Os drones vieram trazer uma pressão psicológica gigante, porque é constante. Até meados de 2024, as infiltrações, rotações e evacuações eram quase todas à noite. Hoje é 24 sobre 7. É com fibra ótica, sem fibra ótica, com dupla câmara, térmica e normal. Há uns tempos achavas que estavas seguro com uma lanterna vermelha. Já não estás."

Na trincheira

Debaixo da terra, que é onde o céu não vê.

Abastecer uma posição passou a ser um risco calculado: no máximo duas vezes por semana. Se o inimigo ouve um Baba Yaga a trabalhar todas as noites, sabe que ali há gente. E aí não descansa "até rebentar com a tua posição".

"Pior são os Mavic. Um piloto consegue pôr um Mavic a um quilómetro de ti e a 300 ou 400 metros no céu. Tu não o ouves, não o vês. Mas ele está-te a ver. Ao ponto de perceber se tens barba ou não e que arma é que tens."

"Não penses que não mandam um FPV para um homem só. A última vez vi, nas nossas filmagens, um russo levar com três FPV. Enquanto não o desfizeram, não pararam. E do outro lado é igual. Por isso é que eu acho que a guerra se tornou mais violenta e menos pessoal."

O ferimento que antes se curava

Para ele, é aqui que a guerra mostra o lado mais cruel.

"Em 2022, 2023, se apanhasses um estilhaço numa perna, na noite seguinte vinha um M113 evacuar-te. Hoje não consegues fazer isso. Ficas na posição, mandam-te medicamentos, até conseguires andar e evacuar-te sozinho ou com outro. Uma ferida que antes tratavas sem stress, e passados uns meses voltavas ao combate, hoje se calhar implica amputação."

"Antigamente o teu principal medo era levar um tiro ou um morteiro. Hoje tens aquilo a que a gente chamava os flying IEDs. São extremamente certeiros. Dão-te poucas hipóteses."

Dois camaradas num abrigo

A guerra que virou moda

Saiu como sargento de companhia. Dava instrução e acompanhava as operações de uma companhia quase toda estrangeira. Viu a tecnologia evoluir. E viu outra coisa a degradar-se.

"Vi a evolução da guerra a nível tecnológico, mas também vi a decadência do profissionalismo. E acho que isso também está a contribuir bastante para as baixas. Não é só o avanço tecnológico, é a falta de conhecimento e a falta de tempo para treinar as pessoas."

Em 2022 havia gente boa, alguns já com anos de Donbas, e havia tempo para treinar. Hoje precisa-se de homens na frente, e o preço paga-se lá.

"Acompanhei algumas recrutas de estrangeiros. São 52 dias e aquilo é uma palhaçada. Muitos dos instrutores vão à procura de um lugar à sombra, não sabem o que estão a ensinar e não têm interesse em ensinar. Depois os rapazes chegam aos batalhões e tens no máximo 14 dias para os teres prontos para uma operação. Não se faz um soldado em dois meses. Não se faz."

Instrução no terreno

Não se faz um soldado em dois meses.

E há o que mais lhe custou ver:

"Experienciei uma coisa que eu não queria, que era ver esta guerra virar moda. Em alguns países virou moda por causa do dinheiro, noutros por causa da influência nas redes. E vês muita gente a ir desta para melhor porque acha que aquilo é o Call of Duty. Acham que vão lá, tiram umas fotos, fazem uns vídeos, vão às operações e que só acontece aos outros. Não é assim."

"Perdi lá camaradas e amigos. Bom pessoal."

Camaradas na floresta

O combatente universal

O combate não se simula. Ele explica porquê melhor do que qualquer manual.

"Podes ter uma pista de fogo com munição real, mas o subconsciente do instruendo está-lhe a dizer: por muito tiro que deem aqui, o meu instrutor não me quer acertar. No combate real é: espera aí, este gajo quer-me acertar. Aquele FPV é para me matar."

Carreira de tiro

Por isso mudou a forma como treinava os homens dele.

"Se calhar 60% do treino que eu lhes dava era medicina tática. Depois batia muito na comunicação e na navegação. Hoje queres que ele seja mais eficiente na medicina tática, na navegação e na comunicação do que propriamente a fazer tiro."

Instrução de medicina tática

Medicina tática: 60% do treino. Toda a gente é socorrista.

Na Ucrânia de hoje, qualquer soldado de infantaria opera em grupos de 4, 5 ou 6. A responsabilidade que antes era de uma equipa de operações especiais caiu em cima de cada homem.

"Toda a gente tem de saber medicina tática, navegar, comunicar. E acima de tudo, toda a gente tem de estar pronta a dar o passo em frente e tomar a liderança. Não pode haver 'ah, o Zé é que sabe navegar, eu vou atrás do Zé'. Não. Eu tenho de saber o mesmo que o Zé. Hoje o Zé é o líder. Amanhã sou eu. Daqui a 20 minutos sou eu."

Instrutor a dar briefing na floresta

E depois há os pormenores que nenhum manual ensina.

"Estás numa posição e tens vontade de mijar. Mijas para dentro de uma garrafa de água e metes a garrafa num saco. Fazes isso com todas as garrafas vazias. Se largarem uma munição incendiária, atiras o saco para cima do abrigo e o mijo abafa o fogo. É um pormenor estúpido, mas extremamente importante. São essas coisas simples que te salvam a vida."

Muito do que sabe, aprendeu-o a errar.

"Íamos aprendendo à medida que íamos cometendo erros. E às vezes só tens capacidade de cometer um erro."

Uma mensagem para casa

Ele não fala só da Ucrânia. Fala de Portugal.

"O próximo conflito que Portugal tiver, seja no âmbito da NATO ou não, seja contra rebeldes ou contra um exército convencional, vai ser um conflito deste género. Já se vêem drones em Israel, até em Myanmar. Isto vai alastrando."

"Cada homem tem de ser, a nível individual, um combatente universal. Tem de saber navegar, comunicar, trabalhar com vários tipos de arma, e saber medicina tática com fartura. E isto tem de partir da recruta. Não pode esperar que as pessoas cheguem aos batalhões."

Para isso, diz ele, é preciso humildade para ouvir quem lá esteve.

"Eu não sou o único. Há mais pessoal aqui em Portugal que lá esteve, no GUR também. É importante aproveitar essas pessoas e perguntar quais são os pormenores, as dificuldades, e perceber se o treino está adequado ao conflito. Não podemos pensar que está tudo bem e que não se vai passar nada. Não vai ser bem assim."

Aula teórica com a companhia

Quadro branco, chinelos e muita atenção. A escola também se faz aqui.

Sozinho sobre a trincheira


Não pediu palco. Mandou um áudio, disse o que tinha a dizer e no fim ainda se ofereceu para responder a mais perguntas. É assim que fala quem esteve lá: sem pose e sem drama, com os nomes dos que não voltaram sempre por perto.

Feitos não se inventam. Contam-se. E este é um deles.

Sangue português, no terreno. Stay Tactical.

Portuguese Blood · HISTÓRIA LUSITANA

Nunca
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