"Os Fuzileiros Americanos": O Testemunho de Quem Combateu em Angola
Da recruta na Marinha às operações no leste de Angola, o testemunho de um Fuzileiro Especial que viveu a Guerra do Ultramar na primeira pessoa

No dia 6 de outubro de 1969, entrei para a Marinha Portuguesa, na 4.ª incorporação. A minha recruta decorreu durante três meses em Vila Franca de Xira e, terminado esse período, segui para a Escola de Fuzileiros, no Vale de Zebro.
Em janeiro de 1970 iniciei o Curso de Fuzileiro Especial, uma formação exigente que concluí em agosto desse mesmo ano. Depois de terminar o curso fui colocado na Força de Fuzileiros do Continente, no Alfeite, onde passei a integrar o Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 6 (DFE 6).
No dia 14 de março de 1971, embarcámos no paquete Vera Cruz com destino a Angola. Éramos cerca de 80 homens entre oficiais, sargentos, cabos, marinheiros e grumetes.
A viagem para Angola
A travessia demorou aproximadamente quinze dias. Depois de uma semana em Luanda, seguimos no navio Roberto Ivens até ao Lobito. Daí continuámos de comboio até ao Luso (atual Luena), numa viagem de cerca de dois dias.
No Luso juntámo-nos a uma coluna de abastecimento que servia várias localidades do leste de Angola. No final de março chegámos finalmente ao Quartel do Lungué-Bungo, onde permaneceríamos durante os dois anos seguintes.
Era um quartel isolado, no meio do mato, junto ao rio Lungué-Bungo.
33 operações em dois anos
Entre março de 1971 e março de 1973 participei em 33 operações.
O destacamento estava dividido em várias secções com cerca de 25 homens cada. Sempre que havia uma missão, apenas uma dessas secções seguia para o mato.
A nossa principal área de atuação situava-se no leste de Angola, em zonas como Catóio, Cassamba, Cangamba e arredores. Operávamos sobretudo contra forças do MPLA, embora também tivéssemos realizado algumas operações em áreas onde se encontrava a UNITA.
Ao longo da comissão participámos igualmente em operações conjuntas com o Exército, Comandos e Paraquedistas

A Operação do Catóio
A missão que mais recordo durou 33 dias.
Ficou conhecida como Operação do Catóio.
Na altura, o Catóio era considerado uma das zonas mais difíceis de conquistar. Diversas unidades portuguesas tinham tentado entrar naquela região sem sucesso. Tratava-se de uma área densamente controlada pelo MPLA e extremamente difícil de penetrar.
Estávamos instalados numa base de campo a cerca de vinte quilómetros da zona de operações.
De três em três ou quatro em quatro dias saía um grupo de aproximadamente 25 homens.
Íamos fortemente armados, como se dizia na época "armados até aos dentes".
Transportávamos duas MG-42, lança-rockets, uma bazuca, um morteiro de 60 mm transportado manualmente e as inseparáveis G3.
Acabámos por encontrar uma entrada praticamente por acaso.
Foi essa descoberta que tornou possível toda a operação.
A partir daí começámos a consolidar terreno. Cada grupo substituía o anterior, utilizando sempre a mesma entrada que conseguimos abrir no primeiro dia. À medida que avançávamos, estabelecíamos posições defensivas para garantir que o terreno conquistado permanecia sob controlo.
Conseguimos destruir várias posições inimigas, capturar armamento e neutralizar elementos das forças adversárias.
O mais impressionante foi que, durante 33 dias de operação, não tivemos qualquer morto nem qualquer ferido entre os nossos homens.

"Os Fuzileiros Americanos"
Durante essa fase da guerra existia uma rádio clandestina ligada ao MPLA que conseguíamos ouvir a partir das nossas posições.
Lembro-me perfeitamente de uma frase repetida várias vezes:
"Não mexam nos ovos, que os patos continuam em movimento."
Os "patos" éramos nós.
Recebíamos essa alcunha porque utilizávamos botes EVO III e botes de fibra para navegar no rio Lungué-Bungo.
Chegámos também a ser apelidados de "Os Fuzileiros Americanos" pelas emissões da rádio ligada ao MPLA.
Americanos não éramos.
Éramos portugueses.

Missão cumprida
Durante toda a comissão realizámos inúmeras operações naquela região.
Praticamente em todas houve contacto com o inimigo.
Graças a Deus, conseguimos cumprir todas as missões sem sofrer qualquer baixa no nosso destacamento.
Continuámos organizados em grupos Alpha, Bravo, Charlie, Delta e outros, cada um composto por cerca de 25 homens preparados para operar sempre que necessário.

O regresso a Portugal
Em março de 1973 terminou finalmente a comissão.
Regressámos de comboio ao Lobito, embarcámos novamente no Roberto Ivens até Luanda e, depois de alguns dias, seguimos para Lisboa num avião da Força Aérea Portuguesa.
Chegámos à Metrópole no dia 24 de março de 1973.
Após um mês de férias regressei ao serviço, sendo colocado no Paiol do Marco do Grilo, onde desempenhei funções de responsabilidade equivalentes às de um sargento, por ser o marinheiro mais antigo presente na unidade.
Em janeiro de 1974 deixei a Marinha, transitando para a reserva territorial até aos 45 anos de idade

Uma memória que permanece
Passaram-se décadas desde aqueles acontecimentos, mas as memórias permanecem vivas.
A camaradagem, o espírito de missão e os homens com quem servi continuam a ocupar um lugar especial na minha vida.
Esta é apenas uma das muitas histórias dos portugueses que combateram na Guerra do Ultramar. Um testemunho vivido na primeira pessoa, que procura preservar a memória daqueles que cumpriram a sua missão em Angola e das gerações que fizeram parte dessa página da História de Portugal.
Sérgio Teixeira
Marinheiro FZE
DFE 6

